segunda-feira, 30 de março de 2015

Estesia: sensações particulares de 4 em 1


Por Igor Gasparini


                O conceito de estesia corresponde à capacidade humana de interpretar sensações e relacionar-se com o mundo pelas diversas percepções. Esta habilidade permite que as pessoas se comuniquem não apenas verbalmente, mas em um fluxo inestancável de troca de informações (TEORIA CORPOMÍDIA, KATZ e GREINER, 2001) sejam elas visuais ou não. E foi pensando (ou sentindo) este conceito que terminei a última sexta-feira, dia 27, após assistir a quatro trabalhos distintos no SESC Pinheiros.  

                Em espaço alternativo, Marta Soares e Cia apresentaram o trabalho Deslocamentos – experimento II, contemplado pela 16ª edição do Programa de Fomento a Dança para a cidade de São Paulo. Na sequência, o programa Brasileiros, do Balé da Cidade de São Paulo, estreou, no palco do Teatro Paulo Autran, três trabalhos de ex-bailarinos da Companhia, que hoje possuem suas pesquisas consagradas em núcleos particulares do cenário da dança contemporânea. Foram apresentados: ---Fio da meada, de Gleidson Vigne; Árvore do esquecimento, de Jorge Garcia; e Cenas A37, de Alex Soares.

(Marta Soares e Cia - Deslocamentos: experimentos II)


                Após tentar digerir melhor cada um dos trabalhos, a grande reflexão que ficou foi: para onde estaria indo a dança contemporânea? Com certeza, uma pergunta sem resposta, mas que faz com que muitos caminhos sejam trilhados na busca por uma pesquisa de linguagem que varia do extremo do conceitual e da ausência de sequências coreográficas a outra ponta em que parece haver muita fisicalidade e técnica e pouca reflexão.

                A arte contemporânea, independentemente da linguagem, suscita potentes reflexões e, muitas vezes, é possível desmistificar preconceitos, tendo em vista que até hoje há quem acredite que obra de arte se resuma apenas a quadros emoldurados na parede. O fato é que o leque de possibilidades da arte contemporânea é bastante grande, podendo abranger manifestações das mais variadas perspectivas, inspirações e técnicas. E, neste enorme espectro, o que se caracteriza então como arte contemporânea? Fatalmente aquilo que dialogue com o momento atual, que saiba olhar para as contradições existentes no meio e ainda promova reflexões críticas.

                Quando adentramos ao universo da dança contemporânea, então, é possível perceber ainda mais complicações e, em geral, o público continua em busca do mesmo entendimento com que lida com as formas de comunicação apoiadas na linguagem verbal: dedica-se a desvendar o significado da sua mensagem. Entende que o seu papel é o de conseguir identificar qual foi a intenção do artista criador e, na maioria das vezes, não consegue formular uma legenda explicativa para o que assiste. Esse é o traço que caracteriza, no caso da dança, a relação do público leigo com os espetáculos que assiste, o que empobrece o potencial reflexivo que a arte contemporânea propõe.

O trabalho Deslocamentos, de Marta Soares, é uma obra de arte, a ser contemplada silenciosamente como nos corredores de um museu. Não é para assistir, mas para desvendar. Serão poucos aqueles que afirmarão ser dança, isso porque se trata mais de uma performance de pesquisa em que o corpo conectado dos bailarinos constrói formas diversas conjuntamente do que coreografias e sequências organizadas como comumente se espera ver em um espetáculo de dança. O silencio da sala é constantemente interrompido por barulhos diversos de avião a descargas e o público desavisado levantou-se e foi embora, não se desafiando a aguardar o final da obra.


Concordo que falta dinâmica, visto que o trabalho começa e termina na mesma toada, sem altos e baixos. Entretanto, sendo essa a proposta, a de apresentar a pesquisa como “partituras coreográficas em que diferentes corpos moldados por figurinos se movem gerando figuras hibridas e sem classificação pré-estabelecida”, o trabalho é apresentado para ser contemplado, desvendado, observado sob diversos ângulos e, de volta ao conceito de estesia, Martas Soares definitivamente propõe algo a mais do que uma obra facilmente assistida como um espetáculo de dança.

O público foi colocado como assistindo a um filme antigo. O corpo estranhou a lentidão. Foi incômodo e desconfortável fisicamente, visto que o corpo sente falta dos excessos, das múltiplas imagens e do barulho intermitente já adaptados em nossas vidas. Tudo é muito rápido e não se pode perder tempo. E em termos culturais, todos estão sempre prevenidos, mas ao mesmo tempo, cada vez mais impacientes. Talvez, se tivesse sido realizado como uma intervenção em uma área de convivência do SESC, não teria incomodado tanto a alguns presentes, visto que cada um dedicaria o tempo que achasse necessário para contemplação da obra.

(---Fio de Meada, de Gleidson Vigne - Balé da Cidade de São Paulo)


Uma pausa para o café e foi a vez do Balé da Cidade de São Paulo estrear seus três novos trabalhos. O Programa Brasileiros iniciou com a obra de Gleidson Vigne, ---Fio da Meada, levantou-se a cortina e logo identificou-se o que seria o cerne da composição: um espetáculo plasticamente belo, com iluminação, cenário e figurinos que impressionaram o público que lotou o teatro Paulo Autran. Diferentemente de Marta Soares, neste há dança, muita dança, mas falta densidade. Há coreografias muito bem executadas, mas permanece na superfície, na borda e nem se quer o release foi capaz de aprofundar a temática proposta. Uma pena.

O segundo trabalho, Árvore do Esquecimento, de Jorge Garcia, teve inspiração em suas raízes populares. Pernambucano, Garcia propôs ao elenco uma releitura do livro e documentário Pedra da Memória, de Renata Amaral, resgatando memórias ancestrais com influências das festas populares, da descendência africana e da história do Brasil. Um trabalho indigesto, com trilha sonora que incomoda pelo barulho intermitente, tem seu potencial justamente na relação destes elementos. Um gramofone de cenário grita lá no fundo da sua alma enquanto assiste a personagens bem caracterizados e com movimentação bastante peculiar. Tão peculiar que pareceu não encaixar tão bem nos corpos dos intérpretes. Com exceção do intérprete solista que inicia a obra, as raízes populares, as referências da terra e do chão estavam lá, mas era possível identificar ainda nos corpos dos artistas as bases clássicas e contemporâneas. Ainda assim, esse diálogo entre linguagens parece ser algo bastante potente no cenário atual da dança contemporânea.

(Árvore do Esquecimento, de Jorge Garcia - Balé da Cidade de São Paulo)


Por fim, Cenas a 37, de Alex Soares, revisitou a obra Cenas de Família, de 1978, do próprio Balé da Cidade. Após três décadas, como estariam aqueles personagens, com seus problemas e conflitos, após a morte de um dos membros da família? Soares propõe uma atmosfera cinematográfica e constrói o espetáculo como em um drama clássico do cinema. Cenários e figurinos auxiliam nesta construção cênica que traz as memórias e o luto como tema central. Corpos que caem pela morte do outro, mas são constantemente reerguidos; um ente querido, hoje distante, imerso a uma bolha de ar, intocável, impassível, inalcançável; o envelhecimento e a consciência da realidade, como em um espelho que reflete sua história. Enfim, foram muitas as reflexões, embora, por alguns momentos, parece que a construção era interrompida por um novo disparador na construção dessas memórias.

(Cenas A37, de Alex Soares - Balé da Cidade de São Paulo)


Volto então ao conceito de Estesia não como um amontoado de estímulos, mas como uma sensação articulada e coerente que também origina o conceito de Estética, aptidão para compreender as sensações causadas pela percepção do belo e de Anestesia, a vedação dos sentidos. E foi entre sensações diversas, do cansaço físico a contemplação da plasticidade, da reflexão a ausência dela, do incômodo corporal ao pleno conforto de uma assistir a uma obra mais leve, da dança a não dança, que o público pôde retornar aos seus lares certos de que, independentemente de qualquer juízo de valor, tiveram contato com distintas obras de arte contemporânea.



Referências:

KATZ, H.; GREINER, C. A natureza cultural do corpo, in Revista Fronteiras, vol. 3, n.2, p.65-75. Rio Grande do Sul, 2001.


segunda-feira, 5 de janeiro de 2015

TOP N

Por Igor Gasparini

          Engraçado como as pessoas gostam de fazer listas. E eu, não escapo à regra! Lista de afazeres; de supermercado; do que não comer; de aniversários... Mas se tem algo que eu nutri desde a minha infância e adolescência, foi a mania, ainda compartilhada com alguns amigos, de anotar todos os filmes assistidos no ano para, no ano seguinte, contabilizar e fazer o tal do top 10. Confesso que com o passar dos anos a quantidade de filmes diminuiu, a de séries aumentou, mas, com certeza, o que mais cresceu, sempre foram os espetáculos e as exposições.



Então, dentre as muitas listas de 2014, resolvi publicar nesta virada de ano o TOP N. Sim! N! Porque não quero Top 10 ou Top 5 ou Top 3, quero listar aquelas obras que mexeram de alguma forma comigo e, a quem interessar possa, quem sabe servir de indicação para um sábado a noite, ou uma segunda talvez, madrugada de terça. N = 9933.

E vale a pena ressaltar que não se trata de uma crítica especializada a esse ou àquele espetáculo, mas sim de uma enumeração de obras que convergem com o gosto deste que lhes escreve!


                FILMES – TOP 9

1.       Terapia de Risco


2.       Her
3.       Chamada de Emergência
4.       Pina
5.       Amnésia
6.       O segredo dos seus olhos
7.       Ninfomaníaca
8.       Five Dances
9.       Hoje eu quero voltar sozinho


ESPETÁCULOS (Dança e Teatro) – TOP 9

1.       Revière – Morena Nascimento


2.       Sobre isso meu corpo não cansa – Quasar Cia de Dança
3.       Once – Musical
4.       A última palavra é a penúltima – Teatro da Vertigem
5.       Hysteria – Grupo XIX de Teatro
6.       Sem passagem – Kahal Cia Experimental
7.       Cacti - Alexander Ekman remontagem com Balé da Cidade de São Paulo
8.       Dark Room – iNSaio Cia de Dança
9.       Oroboro – Alex Soares / MovOla


EXPOSIÇÕES – TOP 3

1.       Made by... Feito por Brasileiros – Hospital Matarazzo


2.       Iberê Camargo – Centro Cultural Banco do Brasil
3.       Acervo permanente do Museu da Resistência – Estação Pinaconteca


SÉRIES – TOP 3

1.       The walking dead – Seasons 1, 2 e 3


2.       Grey’s Anatomy – Seasons 9 e 10
      3.       Awake – Season 1




segunda-feira, 15 de dezembro de 2014

Sobre isto, meu corpo é histérico


 por Bruna Sant'Anna

    Sair despreparada de casa foi essencial para ser tão surpreendida e sensibilizada por dois trabalhos incríveis: "Hysteria", do Grupo XIX de Teatro e "Sobre isto, meu corpo não cansa", da Quasar Cia de Dança. Devo dizer que tenho receio de colocar minhas impressões aqui e me tornar repetitiva ou superficial; não vou a uma apresentação para levantar questões críticas ao mundo, mas vou pelo simples fato de ser prazeroso assistir arte.


(Grupo XIX de Teatro - Hysteria)

            O Grupo XIX escolheu a Igreja da Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos, na Penha, São Paulo, como cenário, construída por escravos no século XIX, mesma época em que as personagens se encontram em um hospício para serem curadas pelo Dr. Mendes e por Jesus e se verem livres daquela internação. Enquanto isso não acontece, aquelas mulheres, espertas e inocentes ao mesmo tempo, mostram com doses de bom humor como é passar um dia lá, mas mostram do jeito que faz qualquer pessoa tímida, como eu, querer sair correndo antes que seja tarde demais: há diversas interações com o público feminino, sem sequer cogitar olhar para os meros espectadores masculinos, fazendo-os inexistentes. Para o meu desespero, fui solicitada algumas vezes, mas as mulheres me acolheram tão bem naquela casa que abri meus braços gradativamente àquela ingenuidade adoecida.

            Seus desejos eram claros: liberdade, cura, voz ouvida, um bom casamento, muito coito e bem-estar dos filhos. Esse é o papel da mulher: ser uma boa mãe e cuidar da casa, afinal, o que mais a mulher pode ser ou querer da vida? O que é uma casa sem uma mãe? Reduzir a mulher a essas funções e ainda calá-las é abafar uma humanidade ímpar, histérica por si só, pelo singelo ato de olhar o mundo com olhos de mulher, por sentir.

            É uma peça envolvente, especialmente para as mulheres, nem extensa nem longa, que me fez perguntar para as outras mulheres que estavam comigo por que os homens entravam primeiro e pegavam os melhores lugares e que apagou completamente essa sensaçãozinha inicial de inferioridade ao me tirarem para dançar, sorrir e gritar, ao me pedir ler um bilhete da coleção especial de bilhetes, ao orar por mim e pelas outras para que haja muito coito nas nossas vidas, ao mostrar que mesmo enclausuradas, a mulher pode ser tão grande e com tantas faces dentro de um corpo só.

            Se Hysteria me trouxe essa reflexão, o espetáculo de Henrique Rodovalho, "Sobre isto, meu corpo não cansa", ressaltou em mim, em meio a tantas histórias, sentimentos e risadas, o que pensei ser uma das características mais fortes de uma mulher: a capacidade de amar de um jeito singular (ou não). A trilha sonora é esmagadoramente composta por vocais femininos da música brasileira (Clarice Falcão, Malu Magalhães e Tulipa Ruiz) que cantam histórias de amores mais contemporâneos, distantes daquele século XIX, que ao mesmo tempo em que não desgruda de um abraço ou faz gracinhas com cheiro de inocência infantil para alguém, tem os pés no chão. A maior participação vocal masculina é nos momentos em que todos os bailarinos cantam em cena.

(Quasar Cia de Dança - Sobre isto, meu corpo não cansa)

            Incansáveis parecem as tentativas do elenco de procurar e arriscar, pois com certeza há falhas pelo caminho e este está permeado por uma movimentação aconchegante, surpreendente (ousadinha, às vezes) e fluida, fazendo com que eu me sinta dançando simplesmente ao andar pela rua, por atingir gentilmente a minha realidade. Esse toque é o que posso trazer agora de mais sincero. Vai bem além do gostar.

            Vai também, junto com Hysteria, para a seção de "reflexões válidas para a vida". Quantas coisas se perdem pelo caminho, quantas são agregadas, outras exigidas, e mais algumas, afloradas. Nascer mulher é um ato ousado e carregar tatuagens invisíveis que se revelam em certos momentos, para certas pessoas, torna a tarefa de marcar o mundo com a própria existência mais amável. Meus rabiscos, desenhos e escritas na pele me tornam sedenta, incansável, histérica.


Bruna Sant'Anna
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   Cursando Letras na Universidade de São Paulo (USP) e Técnico de Dança, reconhecido pelo MEC, desenvolve há mais de sete anos as danças urbanas e também a dança do ventre. Com o T.F. Style, fez parte de temporadas dos espetáculos “Encontros e Desencontros”, “Deserto de Ilusões”, “Tempo”, “Beco” e “Anti” nos teatros Coletivo, Zanoni Ferrite, Centro da Terra, Sérgio Cardoso, Galeria Olido, Alfredo Mesquita, Martins Pena, entre outros. Participou da Virada Cultural de São Paulo e do Estado, além de realizar os Circuitos Culturais do Estado, SESC de Artes e Circuito São Paulo de Cultura. Faz aulas regulares com Igor Gasparini, Sonek e Félix Pimenta. Realizou workshops com Angel B (BRA), de “Dancehall”; Bryan Tanaka (USA), Casper Smart (USA), Guillaume Lorentz (FRA) e Khasan Brailsford (USA) de “Free Style Hip Hop”; Vanessa Conde (BRA), Laure Courtellemont (FRA), Lucas Migliorini (BRA), Karla Mendes (BRA), Cati Borba (BRA), Carolina Mercado (BRA) e Guillaume Lorentz (FRA), de “Ragga Jam”; Félix Pimenta de “Wacking” e Soneka e Popping D (BRA), de “Popping” e “Locking”. Atualmente, ministra aulas de Danças Urbanas no Phalibis Studio de Dança e faz parte do Programa Vocacional de Dança no CEU Formosa.
   

domingo, 23 de novembro de 2014

Desenhos... Pinturas... O corpo-pincel

por Igor Gasparini

"Ensaio-Pesquisa" desenvolvido como Artista Orientador do CEU Formosa pelo Programa Vocacional Dança, da Prefeitura de São Paulo - Equipe Leste 1 - Coordenação: Cláudia Palma


Desenhos... Pinturas... O corpo-pincel


            Muitos são os anseios que me trouxeram, neste ano, para o Vocacional. Embora já tenha inclusive pesquisado o Vocacional Apresenta como estudo de caso na monografia de Especialização em Jornalismo Cultural pela PUC-SP, com ênfase na comunicação entre espetáculo e público, ainda não havia conseguido abrir espaço para me dedicar ao Programa como Artista Orientador. Em 2014, interrompi o meu trabalho como jornalista para dedicar-me exclusivamente à dança: na prática, nas aulas, no T.F.Style Cia de Dança, na pesquisa e no Vocacional.


Não sei identificar bem quais são os limites de cada uma dessas atuações, visto que penso em todas elas interconectadas quando revejo minha trajetória na dança. Entretanto, consigo perceber que há algo que interliga todas essas ações: a minha vontade comunicativa por meio da dança. Acredito na importância de um trabalho que promova um diálogo com o público, que o leve a refletir, pensar, questionar. Não defendo que deva haver um entendimento completo da obra, mas eu, enquanto artista, devo apresentar caminhos para que o público possa encontrar suas formas de interpretação. E o meio utilizado para essa comunicação é o corpo, mídia de si mesmo, que por si só, já apresenta um fluxo constante de troca de informações, segundo a Teoria Corpomídia, (KATZ e GREINER, 1998).
A comunicação ocorre permanentemente na relação entre corpo e ambiente. Todo corpo, humano ou não, existe e pode ser chamado de corpo quando puder ser identificado por uma coleção circunscrita de informações que não para de se transformar. “Meio e corpo se ajustam permanentemente num fluxo inestancável de transformações e mudanças” (KATZ e GREINER, 1998, p. 91). A comunicação é então tecida por esse ajuste contínuo de transformações.
Sendo cada corpo uma mídia de si mesmo, isto é, do conjunto circunstancial de informações que o torna corpo e que nunca se completa, é possível afirmar que os processos de comunicação no ambiente não se estancam, visto que o fluxo de trocas entre ambos é constante. É no fluxo comunicacional que corpo e ambiente lidam com as informações, e elas buscam a sua sobrevivência através da adaptação e da reprodução. É neste ponto que se inscreve o meu momento profissional atual e muito do que vejo como potencial nos Vocacionados, pois cada corpo que chega às orientações já traz consigo toda a sua coleção de informações, de histórias, de memórias.

 

            E foi com o corpo, ou com vários deles, que trabalhei neste ano no CEU Formosa. Corpos bastante distintos e com variadas potencialidades, do jovem ao idoso, Vocacionados com e sem experiência na dança, e até portadores de necessidades especiais. Essa heterogeneidade apresentou a mim uma paleta de muitas cores, cada corpo com seu potencial criativo, com sua história de vida, com sua vontade comunicativa, dançando... E pintando... E dançando.
            Desenvolvi alguns processos criativos e a pintura norteou a investigação. Inspirados ora pela música, ora por técnicas variadas entre as danças urbanas e contemporâneas, ora por laboratórios, ora por experiências bastante individuais, tentamos descobrir esse corpo-pincel. E, com ele, muitas telas foram pintadas: com e no próprio corpo, no corpo do outro; chão, paredes, objetos e teto; dentro e fora do espaço dos encontros; no teatro; na gestão.
            O corpo-pincel, por ser mídia de si mesmo, desenhou sua história. E cada Vocacionado pintou suas memórias e imprimiu nos gestos toda a sua experiência pessoal. A cada encontro foram desenvolvidas novas iniciativas de trabalho, novos disparadores; partes do corpo tornam-se pincéis; e cada um trouxe cada vez mais tinta para nossa grande tela.


       Formas imaginárias ganharam contornos no papel e do papel, dança. Com pequenas intervenções, foram interagindo nas formas um do outro, seja na “tela”, seja no corpo-pincel. E das intervenções, novas formas, novos desenhos, novos contornos. Esse procedimento foi um dos escolhidos para a Mostra de Processos, no qual os Vocacionados, em interação com o público, solicitavam às pessoas que colocassem uma forma (ou um desenho) em um papel para, a partir disso, disparar a última dança da Mostra.
Ainda pensando no processo ao longo deste ano, em outro momento, a dança a partir da escolha de imagens que compõe o material educativo da 29ª Bienal de Arte de São Paulo para, então, resultar em reflexões múltiplas propostas e desencadeadas pelas próprias imagens. Dentre as muitas reflexões: Será possível superar a diferença entre as pessoas? Como a arte e a performance podem ter natureza transformadora? Como nossos gestos revelam quem somos e o que vivemos? A diferença pode ser matéria de interesse para a obra de arte? Um projeto de arte pode ser coletivo? O que é arte? Para que serve a arte? Em geral, tais questionamentos refletem diretamente o processo desenvolvido e a realidade dos Vocacionados dentro do contexto do Programa.


            Gostaria ainda de trazer duas ações realizadas neste período que trouxeram ainda mais tinta para essas reflexões. Com a equipe Leste 1, coordenada por Cláudia Palma, visitamos a exposição de Iberê Camargo no Centro Cultural Banco do Brasil e muitas foram as sensações colocadas na “gaveta dos guardados” (Iberê Camargo, 1993), além das reflexões que reverberam diretamente no trabalho com os Vocacionados. Cada obra de Iberê, notadamente, traz muitas camadas. E, a partir disso, veio a reflexão: Quantas camadas tem a dança? Conseguimos ver ou identificar essas camadas quando assistimos alguém dançando? Quais são as camadas mais profundas, aquelas que servirão de base para esses artistas, e quais são as mais superficiais e até descartáveis?

(Exposição Iberê Camargo - Centro Cultural Banco do Brasil)


A partir do vídeo que mostrava o “processo” desenvolvido por Iberê, uma nova potente reflexão: “A gente passa por muitas coisas lindas para chegar nesta coisa ótima”. Quantas vezes neste processo criativo, desenvolvido por 8 meses, atravessamos bons momentos, mas que são modificados ou remodelados? Às vezes precisamos carcar mais a tinta, às vezes apagar, borrar, misturar as cores. E desses vários momentos, o resultado não pode ser outro: chegamos a essa coisa ótima. Será?
            Em um segundo momento, houve a visita com os Vocacionados à exposição Obsessão Infinita, de Yayoi Kusama, no Instituto Tomie Ohtake. A ideia de visitar essa exposição surgiu em um encontro no qual conversei bastante com duas Vocacionadas portadoras de necessidades especiais. A vontade de visitarmos um espaço expositivo, tendo em vista o processo que temos desenvolvido, já existia. Entretanto, nesta conversa, as duas meninas contaram várias dificuldades que enfrentaram em suas vidas, sendo consideradas loucas por muitos e excluídas de vários contextos. O relato de uma delas, dizendo que, ao entrar na primeira série com 13 anos de idade, sentia-se muito mal porque as meninas atiravam papel nela e a chamava de louca, me fez refletir: o que é a loucura? De onde surge a arte? Por que não da insanidade que todo artista traz consigo? Por que não por meio dos excluídos? Por que não no CEU Formosa? Automaticamente pensei no Bispo do Rosário, artista visual, mas também na exposição em questão, refletindo sobre Yayoi Kusama que, voluntariamente, vive em uma instituição psiquiátrica desde 1977.

(Exposição "Obsessão Infinita" - Yayoi Kusama - Instituto Tomie Ohtake)

            E entre círculos, bolas, pontos, e símbolos fálicos, o que mais nos chamou a atenção foram as múltiplas obsessões, não da artista, mas de todos os que ali estavam. Obsessão pela fila: parece que quanto maior, melhor. Se há fila, lógico que é bom. Vamos nos aglomerar por quilômetros e andar passo a passo até adentrar o grande espaço expositivo. Para que mesmo? Talvez para levar uma recordação e gabar-se de tal “prêmio”.
E a obsessão pela #selfie; com todos os sintomas de alguém com sérios transtornos obsessivos compulsivos. A obsessão por registrar o momento; para levar consigo seu souvenir; para postar sua foto nas redes sociais. Mas... E a experiência? E o olhar? E a sinestesia? Também não era possível, pois uma voz vinha do fundo de cada sala: “Um passo adiante, por favor!”; afinal, estava tão lotado que nem para sentir, nem para a #selfie, havia tempo.
Fui embora um tanto incomodado com isso, afinal, loucos poderiam ser muitos daqueles, menos minhas Vocacionadas que motivaram tal visita. Mas, enfim, voltemos ao processo, e que tal pesquisarmos a obsessão? Novas linhas foram desenhadas, linhas curvas, na verdade, com movimentos circulares, redondos, contínuos...



E a partir de então, era o momento de pensar a Mostra de Processos. “O processo se engendra de maneira cooperativa, com a participação de todos os artistas envolvidos, que atuam conjuntamente no decorrer da própria pesquisa de linguagem. As opções cênicas, nesse caso, não surgem como determinações vindas de fora, mas de dentro das experimentações, possibilitando uma investigação coletiva de caráter processual” (DESGRANGES, 2012, p. 205). Esse trecho extraído do livro “A Inversão da Olhadela: alterações no ato do espectador teatral” resume bem a minha atuação com os Artistas Vocacionados. Em nenhum momento busquei impor algo (de fora), mas eles próprios foram encontrando caminhos (de dentro) que surgiram a partir das várias inquietações corporais e reflexivas desenvolvidas ao longo do ano. O que te move? Qual a busca? Quais questões lhe inquietam? E a partir disso, trabalhamos muito pela improvisação, tentando ao máximo diversificar os disparadores dessa dança, sempre atrelado às sensações e à individualidade.


            Vejo o Vocacional potencializando processos artísticos colaborativos, visto que há a constituição de um coletivo de artistas em trabalho conjunto de investigação. E desta investigação surgiu o tema da nossa Mostra: interior. O que vem de dentro? O que você deseja expressar com sua dança? Qual é essa dança interior? Consequentemente, o objetivo foi então o de mostrar o potencial de cada corpo, individualmente, compensando a heterogeneidade inerente à realidade do nosso grupo.
Aos poucos, fomos percebendo que não era da individualidade que trataríamos, mas da singularidade, pois é esta que nos torna únicos. Cada corpo, com suas histórias (como já abordado neste texto), com sua coleção circunscrita de informações que se torna mídia de si mesmo, desenhando e pintando... Trazendo à tona suas emoções, desejos e todos os outros elementos de nosso estado criador interior. “A definição de um roteiro prévio fornecerá as bases para a improvisação, e o artista irá à cena, permitindo-se viajar pelo inconsciente” (STANISLAVSKI, 2005, p. 257). E nas Mostras, este inconsciente veio à cena, interpretado pela singularidade dos Artistas Vocacionados do CEU Formosa, com todo o seu potencial de corpo, expressando seu interior.

 

Referências:
DESGRANGES, F. A Inversão da Olhadela: alterações no ato do espectador teatral. São Paulo: Hucitec Editora, 2012.
KATZ, H.; GREINER, C. A natureza cultural do corpo. In Lições de Dança 3. Org.: Silvia Soter Roberto Pereira. Rio de Janeiro: Univercidade, 1998.
STANISLAVSKI, C. A criação de um papel. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2005.

(Vocacionados, Artista-Orientadores, Coordenadores - CEU Formosa)



domingo, 12 de outubro de 2014

Nota de Esclarecimento - Sobre peça "O Unicórnio"


   Gostaria de esclarecer o que segue:

   No último texto "O olhar de um unicórnio", a construção textual "Reconhecida por seu trabalho na área de musicais, ao contrário do que se esperaria, a peça surpreende pelo drama imposto pela sensível protagonista interpretada por Flávia Couto." gerou certa repercussão negativa que gostaria de esclarecer.

   A referida diretora se sentiu ofendida por achar que a afirmação foi preconceituosa com a área de musicais. NÃO! Não há qualquer juízo de valor em tal afirmação. O contexto é simplesmente o de situar o leitor que, embora ela seja inclusive coordenadora do principal curso de teatro musical do país, a peça não tinha essa característica; para que o leitor soubesse que a peça se tratava de um drama. Novamente, não há juízo de valor como se o teatro musical fosse uma área menor ou sem estudo, como ela quis "desabafar".

   Fiz questão, então, de escrever essas linhas para que todos os que acessam o blog, inclusive os muitos amigos que trabalham com teatro musical, não se sintam ofendidos. Tal sensação não foi compactuada com os atores da peça, mas como houve diversas manifestações de repúdio, achei por bem escrever o meu posicionamento. Sempre acompanhei a área, admiro bastante, conheço muitos que trabalham com isso e, acima de tudo, respeito o trabalho desses profissionais!

   E aos que me julgaram, também aconselho pesquisar a minha história. Afinal, também houve demasiado preconceito em consequência deste "desabafo". Como muitos ainda acreditam, assim como afirmou Afrânio Coutinho, os críticos “são apontados como jornalistas que se improvisaram e se converteram rapidamente em juízes; ou então, frustrados que buscaram abrigo nos meios de comunicação para criticar com veemência os que obtiveram êxito na produção cultural”. Mas realidade não é bem assim! Na verdade, o que parece fazer sentido é que nenhum artista gosta de ter o seu trabalho negativamente observado. Quando a crítica é positiva, ótimo, mas se falam qualquer coisa de negativo, minha nossa! Vamos difamar este profissional! Ainda que eu tivesse escrito algo negativo, o mínimo que eu esperava, era um pouco mais de respeito!

   Aos que falaram de estudo, inclusive, vejam as minhas duas graduações + especialização + mestrado. Enfim... Sucesso à peça! Que como escrevi, continua valendo muito à pena!



(Trecho da troca de mensagens. O que se sucedeu depois, em sua página pessoal, nem merece atenção, pois aí sim são diversas reproduções generalizadas de preconceitos!)

quarta-feira, 1 de outubro de 2014

O olhar de um unicórnio


Por Igor Gasparini

“Não, não, havia uma certa escuridão no olhar, principalmente quando ela estava perto dele. Do irmão? É. Ela tinha medo do irmão? A escuridão vinha do medo? A escuridão talvez viesse do medo de se sentir com medo” – O unicórnio, Hilda Hilst.


(O Unicórnio - Foto: Hellena Mello)


Na última segunda, 29, estive no Viga Espaço Cênico, em Pinheiros, para assistir ao espetáculo teatral O unicórnio, dirigido por Christina Trevisan. Reconhecida por seu trabalho na área de musicais, ao contrário do que se esperaria, a peça surpreende pelo drama imposto pela sensível protagonista interpretada por Flávia Couto. Ao lado de Frank Tavantti e Vivyan Albouquerque, a trama constrói-se a partir da adaptação do texto homônimo de Hilda Hilst e o que mais instigou foi justamente o olhar deste trio de atores.

Do olhar triste e sedento por piedade da protagonista aos olhares cínicos dos irmãos, no decorrer da narrativa, é de apodrecer junto à personagem escritora, de sentir suas fraquezas, e querer levantar-se da cadeira para acolhê-la, protegendo da crueldade dos irmãos. Mas seriam irmãos ou seu subconsciente? Escritora ou unicórnio? Sarna ou cacos de vidro? Hilda Hilst ou um personagem qualquer? Muitas são as dúvidas que ficam, mas algo é certo: o público não sai impassível do que ocorre na cena. É de levar um soco no estômago e refletir sobre a vida, sobre suas crenças e sobre a sanidade que buscamos ter.

Vejo o unicórnio por si só como um ser instigante. Na mitologia, apenas as jovens puras, e virgens, são capazes de se aproximar e domar este animal. Obviamente, o texto transformar a escritora em unicórnio é bastante sintomático, afinal, mostra o desejo da protagonista pela pureza, pelo amor verdadeiro, enquanto, como ocorre na vida fora da ficção, o que se vê é justamente a falácia do discurso, marcado fortemente pela crise de identidade. E nesta tensão, o papel dos irmãos é essencial por esfregar em sua cara a grande contradição. Em conflito, a personagem vai pouco a pouco esvaindo e, entre amor e excremento, tem o ápice de sua epifania: “eu acredito... eu acredito... eu acredito...”.

A autora, conhecida por temáticas pornográficas, faleceu em 2004 e deixou um grande legado para a literatura brasileira. Com sua vida pessoal marcada por várias crises, Hilda desenvolveu uma obra muitas vezes interpretada como autobiográfica. Em O unicórnio, há quem afirme ser ela a protagonista, trazendo seus conflitos pessoais em relação à orientação sexual para os personagens dos dois irmãos, como reflexos de seu subconsciente. O lado masculino pederasta e o lado feminino lésbica atormentando sua existência.  

Segundo Eliane Robert Moraes, professora da USP, com quem tive o prazer de ter aulas quando ainda trabalhava na PUC, “ela escreveu poemas místicos voltados a um plano divino e escreveu também uma pornografia deslavada. Ela realmente tem um traço de polarização que não existe em nenhum outro escritor ou poeta brasileiro”. Uma peça de teatro com texto de Hilda Hilst não é algo novo, mas a adaptação de O unicórnio para a cena, trazendo três personagens singulares, bem interpretados por atores com ótimas referências de corpo e interpretação, torna a produção única e merece ser prestigiada.


(O Unicórnio - Foto: Hellena Mello)


O unicórnio fica em cartaz até o dia 27 de outubro, todas as segundas-feiras, 21h, no Viga Espaço Cênico, na rua Capote Valente, 1323. Assistam, mas preparem-se, porque não será uma noite tranquila com cara de “novela das 8”. 




terça-feira, 19 de agosto de 2014

Jornalismo cultural como mediador entre obra e público


por Igor Gasparini

            Não há como dissociar comunicação de cultura. Para Harry Pross (1923-2010)[1], o corpo é um meio de comunicação e gestos e expressões revelam uma cultura local. A cultura configura o corpo e o comportamento, comunicando valores. Segundo este autor, citado por Francisco Rüdiger em A teoria da Comunicação (2004, p. 49), os meios de comunicação podem ser divididos em três categorias: primários, quando a comunicação ocorre entre as pessoas sem instrumentos, como acontece na dança; secundários, na medida em que há o emprego de várias tecnologias na produção da mensagem, como nos vários tipos de impressos; e os terciários, constituídos por sistemas tecnológicos que necessitam de instrumentos tanto do lado do comunicador quanto do lado do receptor, como ocorre no rádio ou televisão. Nestas duas últimas classificações é que habita o jornalismo cultural, fazendo a ligação entre o espetáculo e seu potencial público.

            O Jornalismo Cultural agrega diversos gêneros jornalísticos, que variam desde a informação sobre um espetáculo, como ocorre nos Guias Culturais na forma de um serviço prestado ao leitor para uma consulta mais ligeira, com suas avaliações rasas entre estrelas, bolinhas, e etc., passando pelas resenhas e até os textos mais densos como as críticas.

            A resenha corresponde, segundo José Marques de Melo (1985), a uma apreciação das obras-de-arte ou dos produtos culturais, com a finalidade de orientar a ação dos fruidores ou consumidores. Neste caso, a resenha tem por objetivo indicar qual espetáculo escolher, dentre tantas opções de uma grande metrópole. Essa característica é a principal diferença da crítica, que busca uma apreciação completa do autor/obra.

            Para Daniel Piza, a boa resenha é aquela que ainda em pouco espaço, busca uma combinação de atributos como sinceridade, objetividade, preocupação com o autor e o tema. “Deve ser em si uma ‘peça cultural’, um texto que traga novidade e reflexão para o leitor, que seja prazeroso ler por sua argúcia, humor e/ou beleza” (PIZA, 2007, p. 71 e 72).

            A crítica, por sua vez, faz uma apreciação de outra natureza do autor e da obra. Ela apresenta o contexto histórico, e uma reflexão que necessita de tempo e conhecimento do objeto para ser elaborada. Não à toa, a resenha enquadra-se mais ao jornalismo que se pratica atualmente.

Por outro lado, “a crítica exige diferentes métodos e critérios que tornam o seu resultado incompatível com o exercício periódico e regular em jornal, e mais incompatível com o próprio espírito do jornalismo, que é informação, ocasional e leve”, afirma Marques de Melo em A opinião no jornalismo brasileiro (1985, p. 99).  Os críticos tentam manter seu espaço, oferecer julgamento estético, aprofundar uma análise, entrar na abordagem do bem cultural, porém, o espaço para esse tipo de texto vem diminuindo progressivamente na mídia brasileira. Em todos os cadernos culturais, a figura do crítico profissional das linguagens artísticas (dança, teatro, ópera, música erudita...) está desaparecendo.

“Mas o que deve ser um bom texto crítico? Primeiro, todas as características de um bom texto jornalístico: clareza, coerência, agilidade. Segundo, deve informar ao leitor o que é a obra ou o tema em debate, resumindo a história, suas linhas gerais, quem é o autor, etc. Terceiro, deve analisar a obra de modo sintético mas sutil, esclarecendo o peso relativo de qualidades e defeitos, evitando o tom de ‘balanço contábil’ ou a mera atribuição de adjetivos. Até aqui, tem-se uma boa resenha. Mas há um quarto requisito, mais comum nos grandes críticos, que é a capacidade de ir além do objeto analisado, de usá-lo para uma leitura de algum aspecto da realidade, de ser ele mesmo, o crítico, um autor, um intérprete do mundo” (PIZA, 2007, p. 70).

            E ainda há quem discorde do papel dos críticos, como Afrânio Coutinho, citado por Melo (1985), que afirma que estes “são apontados como jornalistas que se improvisaram e se converteram rapidamente em juízes; ou então, frustrados que buscaram abrigo nos meios de comunicação para criticar com veemência os que obtiveram êxito na produção cultural”. O quanto uma crítica, quando existente, pode influenciar a ida do público a um espetáculo de dança é desconhecida e merece melhor atenção. No caso da dança, deve-se ponderar também que, por conta da breve duração das suas temporadas (uma média de três dias), raramente a crítica consegue ser publicada com o espetáculo ainda em cena.

            Existem ainda, além da crítica e da resenha, outros textos culturais com objetivos distintos. Na coluna de opinião, as características são semelhantes, mas o autor assume seu posicionamento em tom pessoal; a reportagem tem objetivo de levar uma novidade ao leitor e, por vezes, relaciona com fatos do dia a dia, por exemplo, reportando alguma política pública cultural; e perfis e entrevistas relatando vida e carreira de personagens de destaque nacional ou internacionalmente.

            Para Nicolas Bourriaud, em Estética relacional, “a atividade artística constitui não uma essência imutável, mas um jogo cujas formas, modalidades e funções evoluem conforme as épocas e os contextos sociais. A tarefa do crítico consiste em estudá-la no presente” (2011, p. 15). Assim, apresentar as relações entre contexto histórico e atualidade é uma atividade que demanda tempo de pesquisa, realização de entrevistas, vivência entre jornalista e artistas, o que não se faz na mesma agilidade exigida pelo jornalismo diário. E, como observa Daniel Piza, “o jornalismo cultural brasileiro já não é como antes” (2007, p. 7), comparando os textos dos autores do passado com os poucos equivalentes do presente. O autor ainda defende que:

“há muito o que fazer pelo jornalismo cultural no gênero da reportagem, inclusive no chamado ‘hard news’ (as notícias mais quentes, inadiáveis), mas isso não pode ser feito à custa da análise, da crítica, do debate de ideias – vocações características do jornalismo cultural e carências fortes do leitor contemporâneo” (PIZA, 2007, p. 8).

(Espetáculo Anit - T.F.Style Cia de Dança)

Ele exemplifica que são muitas as oposições, de polarizações, que contaminam o jornalismo cultural diariamente: entretenimento versus erudição; nacional versus internacional; regional versus central; jornalista versus acadêmico; reportagem versus crítica; entre outros, que fazem com que a realidade atual deste segmento jornalístico seja bastante obscura até mesmo para os próprios jornalistas que o fazem dia a dia.

 Daniel Piza defende que há muitas pessoas que associam “cultura” a algo inatingível, “exclusivo dos que lêem muitos livros e acumularam muitas informações, algo sério, complicado, sem a leveza de um filme-passatempo” (2007, p. 46). Dessa forma, tanto jornalistas quanto veículos tendem a traçar caminhos exclusivos que enfoquem apenas um lado, ou grupo específico de pessoas. Resenhar o último filme hollywoodiano ou o cinquentenário de algum clássico do cinema? Há espaço para ambos no mesmo veículo? Para ele,

“jornalismo é dosagem. Temas ditos eruditos podem ser tratados com leveza, sem populismo; e temas ditos de entretenimento podem ser tratados com sutileza, sem elitismo. Suplementos semanais podem ganhar vibração jornalística, mantendo a densidade crítica; cadernos diários, o inverso. Não há propriamente um método” (PIZA, 2007, p. 58).

Ainda segundo o autor, “cada publicação da imprensa tem um público-alvo e deve se concentrar em falar com ele, sem abrir mão de tentar contribuir com sua formação, com a melhoria do seu repertório” (2007, p. 47). Aqui acrescento uma reflexão: qual seria então o público-leitor de um texto de dança, seja resenha ou crítica? Para quem estamos falando? O que interessa a essas pessoas? Acredito se tratar de um assunto que ainda merece maior atenção e pesquisa.

Depois que a associação entre cultura e entretenimento se estabeleceu como prática no jornalismo cultural, houve uma consequente diminuição de espaço para as linguagens artísticas que permanecem fora do grande espetáculo das mídias. Assim, o que ganha espaço se fortalece e continua a ganhar cada vez mais espaço, e o que não está na mídia, está cada vez menos. A consequência desse aparente beco sem saída vai resultar também no tipo de produção. Soma-se a isso, o fato de que muitas reportagens apenas ecoam o momento descartável do sucesso momentâneo daquela obra/artista.

Segundo José Arbex Jr., para a atividade jornalística, a velocidade é cada vez mais importante. “A notícia é, por sua própria natureza, uma mercadoria altamente perecível, torna-se antiga no instante mesmo de sua divulgação, especialmente em um mundo interconectado por satélites e bombardeado, a cada segundo, por uma imensa montanha de novos dados” (2001, p. 88). A análise aprofundada de um espetáculo, contextualizando-o, como preconiza uma boa crítica, torna-se uma atividade cada vez mais rara. Arbex Jr. ainda afirma que essa prática também produz uma “amnésia permanente”, abandonando qualquer reflexão sobre determinado evento.

“Apenas e somente no processo de interlocução com o outro, no exercício cada vez mais difícil de saber identificar e escutar outras vozes, o crítico pode resgatar a memória dos fatos para além de sua representação estereotipada e manipulada, encontrando as perguntas certas para orientar seu trabalho de investigação e compreensão dos fatos. (...) A memória tende a ser ‘encurtada’ – ou obliterada – pelo ritmo frenético da vida condicionada pelo ‘mercado’, pelas imagens televisivas mostradas em ritmo de vídeo-espaço público, com a atomização do indivíduo que se retira para manter relação com as máquinas” (ARBEX JR., 2001, p. 270).

            Neste paradoxo entre velocidade e reflexão, experiência e tecnologia, a relação entre jornalismo e espetáculo de dança necessita encontrar seu espaço. Local este em que o jornalista cultural pode descobrir saídas textuais que complementem e contribuam para a continuidade do processo de comunicação entre espetáculo e público, ou ainda, que faça com que mais pessoas se interessem pela possibilidade de assistir a um trabalho de dança.

“O fundamental no jornalista cultural é que saiba ao mesmo tempo convidar e provocar o leitor, notando ainda que essas duas ações não raro se tornam a mesma: o leitor que se sente provocado por uma opinião diferente (no conteúdo ou mesmo na formulação) está também sendo convidado a conhecer um repertório novo, a ganhar informação e reflexão sobre um assunto que tendia a encarar de outra forma” (PIZA, 2007, p. 68).

Seria esse então um caminho para fazer com que as pessoas se sentissem “provocadas” a assistir dança? E, com o tempo, o resultado fosse um público maior e mais diversificado neste segmento artístico?

Em minha opinião, acredito que mais do que anunciar uma obra artística ou tecer comentários sobre ela, é papel do jornalista cultural refletir o comportamento, indicar tendências, contextualizar historicamente e ser um veículo entre obra e público, complementando a comunicação inerentemente presente na relação entre eles. Além, de alguma forma, tentar direcionar a reflexão deste público para algo diferente do que salta aos olhos, do óbvio, o fazendo pensar inclusive sobre a cultura na qual ele próprio é parte integrante. Concordo com Octavio Paz[2], quando defende que “ser culto é pertencer a todos os tempos e lugares sem deixar de pertencer a seu tempo e lugar” (PAZ apud PIZA, 2007, p. 62).

Há ainda outra relação entre espetáculo e mídia que cada vez mais se faz presente nas artes contemporâneas: a inserção da tecnologia como mais um instrumento comunicativo. A ideia é justamente a de utilizar os recursos tecnológicos como instrumentos de comunicação, bem como são utilizados os demais recursos sejam textuais, coreográficos, cênicos ou interpretativos. Com auxílio de tantos elementos comunicativos e, como consequência, atingindo de diversas formas seu público, quando começar a olhar para si mesma com maior complexidade – com maior grandeza – , a dança brasileira vai dar um salto, salto esse que não se trata de um passo qualquer de uma coreografia.


Referências Bibliográficas:

ARBEX JR., J. Showrnalismo: a notícia como espetáculo. 4. ed. São Paulo: Casa Amarela, 2001.

BENJAMIN, W. Magia e técnica, arte e política. 3. ed. São Paulo: Brasiliense, 1987.

BOURRIAUD, N. Estética relacional. [S.l.]: Martins Fontes, 2001.

BRIGGS, A.; BURKE, P. Uma história Social da Mídia: de Gutenberg à Internet. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2004.

HOHLFELDT, A.; MARTINO, L. C.; FRANÇA, V. V. Teorias da comunicação: conceitos, escolas e tendências. Petrópolis, RJ: Vozes, 2001.

LIMA, L. C. Teoria da Cultura de Massa. 7. ed. São Paulo: Paz e Terra, 2005.

MELO, J. M. D. A opinião no Jornalismo Brasileiro. Petrópolis: Vozes, 1985.

MELO, J. M. D. Jornalismo Opinativo: gêneros opinativos no jornalismo brasileiro. 3. ed. Campos de Jordão, RJ: Mantiqueira, 2003.

PIZA, D. Jornalismo Cultural. 3. ed. São Paulo: Contexto, 2007.

RÜDIGER, F. Introdução à Teoria da Comunicação: problemas, correntes e autores. 2a. ed. São Paulo: Edicon, 2004.

SFEZ, L. Crítica da comunicação. São Paulo: Edições Loyola, 1994.







[1] Jornalista, cientista político e cientista das comunicações, Harry Pross possui mais de 25 livros publicados e foi um dos pensadores da comunicação de maior destaque dos últimos anos. Foi professor e diretor do Instituto de Ciências da Comunicação da Freie Universität Berlin. Morreu em 2010. (Fonte: <http://es.wikipedia.org/wiki/Harry_Pross>).
[2]  Poeta, ensaísta, tradutor e diplomata mexicano, recebeu o Prêmio Nobel de Literatura em 1990.